Um
Pedido à Iemanjá
Era mais uma daquelas manhãs lindas e
ensolaradas (aliás, haja sol), e eu numa viagem, por fora no foca IV, aquele
grandão de dois andares, mas lento, lento...
Estava tranquilo observando pasmo,
como sempre aquele mundão d’água (lá no nordeste não se vê tanta água assim
não!). De repente, duas mulheres, até que bem mais ou menos (mas com cara de
titias) tiraram de suas bolsas da Fórum (ali dos camelôs da Presidente Vargas)
dois sabonetes Lux Luxo Suave Glicerinado (desculpem-me o merchandising),
cheiraram-nos, e com uma concentração e super introspectiva feito dois monges
budistas do Tibet, fizeram orações mentais por uns dez minutos, com fevor de dá
inveja a qualquer beata fanática.
Beijaram os sabonetes de maneira
apaixonada (digo isso por que era daquele jeito que eu beijava uma antiga
namoradinha minha). Marcados de vermelho carmesim, em gestos quase poético
foram atirados na água: tchibum. Afundaram rapidola!
As duas se olharam cumplicemente,
deram um sorriso, acenderam um cigarro desses importado aqui da nossa França
vizinha (tudo aquilo parecia fazer parte do ritual). Tomaram um cafezinho e
embenharam-se num papo super animado regado a muitas salutares risadas.
Com certeza planos mirabolantes foram
tramados “pra mais logo à noite”.
Eu pessoalmente fiquei cogitando
inúmeras hipóteses para aquela inusitada cena. Que diabos de reza, promessa,
pedido ou mandiga estariam fazendo? Logo, logo imaginei uma coisa que certamente
teria bastante sentido. Com aquelas caras de solteironas deve ter sido mais ou
menos assim o pedido em forma de reza:
Iemanjá, rainha das águas
Cheia de bondade e compreensão
Encha nossas vidas
De muito amor e fatisfação
Fazei que hoje
Nesta noite de lua cheia, que tudo
clareia
Após a meia noite em Itupanema
Na praia do Rozal
Um lindo boto
Perfumado com esse Lux Luxo Suave
glicerinado
Apareça pra mim
E realize meu desejo carnal.
Bem, se não era exatamente essa a
intenção das duas incautas donzelas de tanta fé, uma coisa pelo menos eu posso
garantir. Depois daqueles dois sabonetes Lux Luxo Suave Glicerinado, com
absoluta certeza hoje não tem peixe pitiú no Ver-o-Peso.
Muito boa essa crônica.
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